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24/01/2009
Este "beta-livro" reúne textos originais de ativistas, acadêmicos e profissionais que estão ajudando a inventar/moldar a cultura da Web no Brasil. É uma experiência de produção de conteúdo educativo usando a Rede que começou na Campus Party em janeiro de 2009. É também um projeto colaborativo publicado com licença CC e aberto a interferências. E está melhorando graças a eles/as.
Temas:
Noções: beta, capital social / Whuffie, cauda longa, co-working, cultura do remix, cyberpunk, ética hacker, interatividade, metodologias ágeis, rede social, viral, Web 2.0
Práticas: blog, bridge-blogger, comunidades de prática, consumer-to-consumer (C2C), Creative Commons, fotografia digital, jogos eletrônicos, jornalismo colaborativo, micro-blogging, mobile, Open Space / Barcamp, peer-to-peer (P2P), podcast, propaganda online, wiki
Desafios: brecha digital / exclusão digital, cyberbullying , ecologia digital, Lei Azeredo, Lei Eleitoral e internet, lixo eletrônico, pirataria, privacidade, spam, voluntariado em rede
Juliano Spyer, organizador
www.naozero.com.br
Alessandro Barbosa Lima
A privacidade na computação é um assunto polêmico e que geralmente volta ao palco das discussões da sociedade sempre que uma inovação tecnológica desafia a compreensão dos consumidores e, real (ou imaginariamente), se torna uma ameaça potencial à privacidade. Com a internet, o rol de ameaças à privacidade só cresceram.
Tudo começou quando dois computadores se conectaram pela primeira vez. O acesso remoto a arquivos e o compartilhamento de recursos computacionais serviram à segurança, mas por outro lado abriram uma brecha na privacidade – um computador poderia ter seus arquivos acessados remotamente por outro. De acordo com a história contada no site da Internet Society, em agosto de 1962, o pesquisador Joseph Carl Licklider, do MIT, foi a primeira pessoa a descrever as possibilidades de interações sociais que podiam ser realizadas através de uma rede de computadores interconectados. Através de memorandos, ele concebeu o conceito de uma rede global de computadores interconectados na qual as pessoas poderiam acessar dados e programas de qualquer lugar. Este conceito foi chamado por Licklider de “Galactic Network” e hoje é tido como inspirador da atual Internet.
Com o advento da web, a interface multimídia da internet, um novo desafio à privacidade se impôs: o e-mail. Criado como uma forma de comunicação rápida, o e-mail passou a ser uma ferramenta invasiva, que carregava até a máquina do usuário ameaças letais, como vírus e software que permitia a hackers capturar senhas ou outros dados do internauta sem que este percebesse.
Depois do e-mail, uma nova ameaça, os cookies. Pequenos arquivos digitais salvos em um computador por um determinado site visitado, o cookie permitia ao visitante ser reconhecido rapidamente ao voltar ao site, tornando a navegação mais amigável. Porém criava uma brecha para que a empresa dona do site pudesse não apenas conhecer o usuário, mas saber seus hábitos de navegação. As empresas começaram a compartilhar cookies deixando os usuários ainda mais expostos em relação a seus hábitos de navegação. Hoje, os cookies ainda são um desafio, mas é possível desabilitá-los rapidamente com um pouco mais de conhecimento do funcionamento dos navegadores web.
Ameaça maior veio no início em 1 de abril de 2004 quando o Google anunciou o Gmail. O Gmail trouxe os links patrocinados, que já eram conhecidos do internauta, porém com uma novidade: o Gmail escaneava o texto de todos os e-mails e mostrava anúncios do lado direito da tela de acordo com o contexto.
No início a funcionalidade nova não foi bem recebida pelos usuários e gerou vários protestos contra o Google ao redor do mundo. Foi necessário que Larry Page and Sergey Brin explicassem publicamente o funcionamento dos links patrocinados no serviço de e-mails do Google e como eles não eram uma ameaça à privacidade, uma vez que os e-mails não eram de fato lidos por funcionários do Google.
Nem a Apple, famosa pela invenção do computador pessoal Mac, do iPod e do iPhone escapou das acusações de invasão à privacidade alheia. Em 2006 a Apple lançou uma nova versão do iTunes que ter uma música executada realizava indicações de outras canções, porém permitia ao software escanear a biblioteca de músicas do usuário.
No tempo das redes sociais um novo nível de ameaças estabelece seu alcance. As redes sociais como o Orkut e os blogs tornam nossas relações pessoais transparentes e visíveis, gerando uma exposição nunca vista antes. Para as empresas surgem novas oportunidades (mas também ameaças). O boca-a-boca pós e pré-compra, antes um fenômeno invisível, se torna transparente e visível, o que possibilita uma compreensão maior das influências do processo de decisão de compra.
Por outro lado, os consumidores ainda não perceberam que é necessário impor limites à exposição nas redes sociais. É como uma faca de dois gumes. Se por um lado aumenta o efeito de socialização, por outro expõe a vida pessoal a níveis nunca imaginados. A exposição nas redes sociais independe da disponibilização ou não de dados pessoais. Em junho de 2000, Cass Sunstein, um professor de Direito da Universidade de Chicago, numa pesquisa randômica em sessenta sites políticos, descobriu que apenas 15% deles tinham links para sites com idéias contrárias. Por outro lado, 60% tinham links para sites com o mesmo pensamento político. (SUSTEIN apud BARABÁSI, p.170). Ou seja, mesmo que você não informe nada sobre sua rede, suas ligações apenas são suficientes para aumentar sua exposição.
Como prevenir que os profissionais de marketing, de posse do mapa das nossas redes sociais não cometam abusos? Parece-nos difícil responder este questionamento hoje, uma vez que o problema ainda não manifestou para os consumidores. Mas em pouco tempo o uso dos nossos mapas sociais para ações de comunicação e marketing poderá se tornar uma realidade e problemas éticos certamente não tardarão a aparecer.
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Alex Primo
“A interatividade é o diferencial do jornalismo online”. Vamos ser sinceros: frases como essa acabam por não dizer nada. O termo “interatividade” — que emerge com a indústria informática — ao mostrar-se tão amplo, torna-se vago. Para seguir no exemplo de um jornal online, será que tanto aquelas páginas sem qualquer abertura para comentários quanto os sites de webjornalismo participativo são igualmente interativos? E mais, como podemos pensar a interação no ambiente digital?
Não podemos negar que veículos analógicos como jornais, revistas e emissoras de TV e rádio não eram antes interativos. Um leitor que liga para a redação sugerindo um ponto de pauta, um ouvinte que conversa no ar com o locutor de seu programa favorito, ou mesmo a resposta a uma pesquisa de opinião são, a rigor, formas de interação. O que precisamos é diferenciar os tipos de interação, seus contextos, intensidades e efeitos para respeitar a complexidade do fenômeno interacional e dar sentido às diferentes situações de comunicação.
Sempre achei que “interação” é um dos conceitos de base da comunicação mediada por computador. Mas, em meio à confusão de tantos slogans e discursos sobre as maravilhas dos produtos interativos, decidi buscar uma forma de distinguir os processos de interação na internet.
Para simplificar, e evitar uma imensa lista com dezenas de tipos e sub-tipos, pude observar dois grandes grupos de processos interativos mediados por computador. O primeiro, que chamei de interação reativa, caracteriza-se pelas trocas mais automatizadas, processos de simples ação e reação. Podemos considerar que tanto um intercâmbio entre dois bancos de dados quanto o uso do programa Gimp por um estudante são exemplos de interação reativa. Ora, as trocas encontram-se previstas. Mas existem intercâmbios nos quais pouco ou nada está definido a priori. Um bate-papo entre amigos no MSN, uma negociação comercial via Skype e até mesmo uma discussão via SMS emergem no momento, são criadas pelos próprios interagentes durante o encontro. Mesmo que os negociadores do exemplo anterior tenham objetivos a cumprir, apenas durante a reunião online que as decisões serão confirmadas. É muito diferente, portanto, da interação com um software, onde as reações do programa precisam ser determinadas a priori para que possam ser desempenhadas conforme o projeto. O segundo tipo, baseado na construção cooperativa da relação, cuja evolução repercute de nos eventos futuros, eu chamo de interação mútua.
Claro, essa é apenas uma entre tantas tipologias. Mas através dela podemos inclusive compreender a diferença entre os primeiros tempos da Web e o que se convencionou chamar de Web 2.0. No caso do jornalismo online, podemos lembrar que os primeiros sites jornalísticos limitavam-se ao hipertexto. Os internautas podiam já escolher as trilhas que mais lhe interessavam, criando o seu próprio percurso noticioso. Contudo, precisavam escolher entre as alternativas disponíveis a priori. Ou seja, processos de interação reativa. Com a Web 2.0, e a mudança do foco da publicação para a participação, passou-se a valorizar cada vez mais os espaços para interação mútua: o diálogo, o trabalho cooperativo, a construção coletiva do comum.
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Alex Primo é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS e pesquisador do CNPq. Possui mestrado em Jornalismo (Ball State University) e doutorado em Informática na Educação (UFRGS). Sua tese de doutorado foi premiada pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e pela Sociedade Brasileira de Infomática na Educação (SBIE) - currículo Lattes. Foi secretário da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação - Compós (2005-2007) e editor dos periódicos e-compós e Intexto. Prestou consultoria para a equipe do Orkut, na sede do Google, na Califórnia. Publicou o livro “Interação Mediada por Computador: comunicação, cibercultura, cognição”. Atualmente pesquisa gêneros e interações em blogs e conversações online. Coordena o Laboratório de Interação Mediada por Computador (LIMC).
Alexandre Hannud Abdo
Ao longo do segundo semestre de 2008 aconteceu algo curioso comigo. A certa altura reparei que estudava numa wiki - a Wikipédia - ensinava noutra wiki - o Portal Conhecimento - trabalhava numa terceira - o repositório do projeto Graph-Tool - e organizava um evento - o encontro Reverberações - e um movimento - o Wikibrasil - numa quarta wiki.
Logo, e sem muitas opções para preencher os sonhos senão com essas memórias do meu dia, acabei transformado num "24 hour wiki people". Mas não se espante, este sendo um texto introdutório - escrito no Tomboy, um aplicativo de wiki pessoal - conta-se essa ladainha para dar uma idéia da variedade de atividades que podem ter a wiki como suporte tecnológico. Mas o que é, afinal, uma wiki?
Chama-se ''wiki'', palavra que no idioma havaiano significa ''rápido'', à mais simples e flexível ferramenta de colaboração pela internet. Simples em conceito, mas complexa em sua tecnologia.
Trata-se de qualquer sítio onde o usuário pode, além de visitar as páginas, editá-las com apenas um gesto. Basta um clique na ligação "editar" e o conteúdo da página aparece numa interface adequada para ser modificado. Após modificá-lo, um clique no botão "salvar" registra as mudanças e aquela página passa a apresentar-se com as modificações a todos, que por sua vez podem seguir editando-a.
Mas a tecnologia da wiki não para aí. Cada modificação feita fica armazenada num lugar visível por todos, e pode ser desfeita com a mesma facilidade. Diferenças entre modificações também podem ser visualizadas, e cada página permite ao usuário inscrever-se caso deseje ser avisado sobre mudanças. Isto é, a ferramenta permite utilizar a memória e sinalizar mudanças de cada página. Com essas três qualidades: edição, memória e sinalização, a colaboração através de wikis torna-se extremamente eficiente.
Claro, acrescente-se à receita a qualidade fundamental da web, o hipertexto, que no caso das wikis tem sabor especial: cada ligação para um endereço dentro da wiki que ainda não tenha conteúdo, além de apresentar-se com uma cor distinta, ao ser clicada remete já à interface para inserir novo conteúdo. Permite-se, assim, organizar idéias ainda não desenvolvidas de uma forma que estimula e facilita a contribuição.
Por sua natureza livre, mas destacadamente quando abertas a contribuições de um grande número de pessoas, as wikis giram em torno do seu conteúdo e não dos seu autores. Isso também a diferencia da maioria das ferramentas da internet. Nos blogs, por exemplo, o autor da mensagem pauta o conteúdo e cada comentário representa individualmente a opinião dos outros usuários.
Nas wikis, quanto mais relevante o assunto de uma página, mais interessados haverá e, como cada um destes pode editá-la como um todo, apenas o entendimento coletivo permitirá compor uma versão duradoura. Quando não há entendimento, ocorrem disputas de edições e algumas wikis tem mecanismos de moderação para evitar isso.
Para facilitar esse diálogo, algumas implementações anexam a cada página uma outra, específica para discussão da primeira. Os usuários então aproveitam esse espaço de discussão como fórum, rascunho e até para organização da micro-comunidade que surge em torno de certas página muito populares.
Por isso, paradoxalmente, a experiência nas wikis tem uma dimensão muito próxima do convívio humano. A maioria das ferramentas da internet, ao garantirem tecnologicamente o controle individual do seu espaço de expressão, eximem o usuário de parte do desafio de conquistá-lo socialmente.
Assim, o conteúdo está na ribalta, mas as pessoas construindo ele tornam as wikis também um lugar interessante para fazer amigos e aprender a viver partilhando um espaço de todos... ou fazer inimigos e destruí-lo.
Por fim, não há como abster de destacar o exemplo máximo das wikis, a Wikipédia. Para quem não conhece, a maior enciclopédia do mundo construída por milhões de voluntários, muitos deles anônimos.
A quem está hoje acostumado a consultá-la, um professor meu costuma lembrar o quanto o seu sucesso contraria o senso comum e econômico do homem moderno pré-digital, de apenas uma década atrás, para quem eficiência de produção era alcançada com incentivos monetários, barreiras de acesso e um sistema de hierarquia rígido.
* Também está licenciado sob CC-BY-SA
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Alexandre Hannud Abdo estava no colégio quando percebeu que a fusão atômica não solucionaria a desigualdade de oportunidades. Sem respostas, continuou estudando de tudo um muito e hoje dedica-se a pesquisar como mudanças nos meios de comunicação influenciam a estabilidade de diferentes formas de organização social. Seu e-mail abdo@usp.br, mas ele gosta mesmo quando visitam sua página pessoal http://cecm.usp.br/~eris/ ou lhe dizem Ni!
Alexandre Matias
O termo remix surgiu nos anos 70, quando produtores e DJs descobriram que era possível mexer na música depois que ela havia sido gravada. Um conceito de certa maneira novo, a pós-produção ajudou a maturidade do rock nos anos 60, quando, liderada pelos Beatles, toda uma geração se dispôs a alterar a própria obra com efeitos, superposições e modulações que podiam mudar sutil ou completamente o que havia sido registrado em estúdio. Mas o que o produtor americano Tom Mould descobriu quase sem querer que era possível aproveitar este novo recurso e aplicá-lo em um mercado ainda mais recente, o da disco music. Ele quem começou a explorar as possibilidades de uma mesma música ser esticada, às vezes por mais de dez minutos, caso fosse necessário. Ciente da novíssima habilidade dos DJs de Nova York no final dos anos 70 (que, sozinhos, começaram a grudar as músicas umas nas outras, juntando batidas semelhantes e encaixando as músicas umas nas outras), Mould percebeu que poderia ajudar a movimentação da pista de dança se fizesse discos que ajudassem o DJ - afinal, discos eram seus instrumentos. E assim foi inventando novidades como o breque instrumental no meio da música - que poderia ser usado ou para prolongar a duração da música, usando-se dois discos, ou permitir que uma nova música entrasse -, o single de 12 polegadas (com sulcos mais largos, em vez do compacto de sete) e, finalmente, o remix.
O conceito de remix, no entanto, não podia ficar limitado à pista de dança. Afinal, ele trata de um processo que começa a reverter o detalhismo cartesiano que categorizou o mundo em compartimentos tão diferentes que parece não ter conexões entre si. Aos poucos redescobrimos pontos em comum em áreas que antes julgávamos completamente alheias umas às outras - intersecções entre arte e dinheiro, ciência e religião, paixão e lucro - que nos fazem repensar completamente o cenário em que habitamos. Estamos, como Mould no final dos anos 70, descobrindo que existem formas de facilitar a vida de cada um dos DJs do mundo - e todo mundo é um DJ em potencial. Como tal, todo ser humano edita sua própria realidade a partir de sentimentos, conceitos, princípios e valores que são, voltando à metáfora, as canções que ele quer que o resto do mundo ouça. Com os recentes avanços tecnológicos que tivemos ao final do século passado, começamos a remixar a realidade de forma mais drástica e consciente, seja no controle remoto, no uso da internet e em tudo que consumimos.
Mais do que na música, que ainda mantém alguns setores completamente alheios ao remix, a realidade atual é completamente remixada. Entre as roupas customizadas e os carros tunados, há um sem-fim de produtos que estão sendo reinventados por seus consumidores - além de tantos outros produtos que foram feitos para ajudar as pessoas a criar, mais do que a simplesmente remixar. Se antes temíamos que a sociedade do consumo nos padronizasse e uniformizasse, estamos vendo um movimento bem diferente acontecendo hoje em dia - e a cada dia que passa, mais temos possibilidades disponíveis para alterar a nossa rotina.
Esse processo de remisturação é o oposto do que aconteceu, voltamos à música, quando o áudio começou a ser gravado. Artistas que nunca haviam aspirado o sucesso além de sua própria comunidade aos poucos se viram transformados em pequenas celebridades, vendendo um novo tipo de som novíssimo para o público em geral pelo único fato de ser gravado. Se antes a música popular era um processo coletivo, sem duração, gênero musical ou autoria definidos, à medida em que o século 20 amanhecia, surgiram novos astros de uma música que, devido a limitações técnicas (só era possível gravar três ou quatro minutos), passava a ter um tema só e começo, meio e fim. Assim surgiu o jazz, o blues, o tango, a moda de viola, o samba, o baião, a rumba, o country e o frevo, por exemplo, gêneros musicais que eram praticados na rua por todos que, quando um Robert Johnson ou Luiz Gonzaga chegava ao estúdio, era personalizado em um músico, quase sempre "o rei do tipo de música tal".
Estabelecida com o advento da mesma inovação tecnológica que deu origem aos idiomas modernos, aos países, aos livros e ao jornalismo (a palavra impressa), a autoria, como todos estes conceitos anteriores, vem, no entanto, sofrendo uma drástica derrocada que acompanha os primeiros passos de uma nova consciência planetária. O meio ambiente, o capitalismo moderno e a cultura pop funcionaram como agentes cruciais no despertar dessa sensação de que todos nós somos responsáveis por todo o planeta. A internet só nos conectou. Encontrou um ambiente propício para acelerar a troca de idéias e de informação a ponto de tornar-se, em pouquíssimo tempo, no sistema nervoso da humanidade.
Do mesmo jeito que o gênio não é alguém que veio do nada e venceu por conta de seus próprios esforços (sempre procure o contexto de onde o sujeito veio antes de comemorar a vitória da individualidade), a criatividade também não pertence a um só indivíduo. E se o século 20 consolidou o conceito de autoria graças à várias revoluções tecnológicas do fim do século anterior (a fotografia, a rotativa, o gravador de som e de imagens - basicamente invenções ligadas ao processo de registro), a revolução tecnológica que assistimos hoje é baseada em exposição, distribuição e troca. Estamos dispostos a fazer o conhecimento planetário possa se tornar acessível a todos os seres humanos e temos cada vez mais consciência disso - como do nosso papel de agente desta distribuição, atuando como um DJ que, de acordo com as "músicas" (sentimentos, conceitos, princípios e valores) que escolhe, atinge um determinado tipo de público.
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Alexandre Matias, 34 anos, faz o Trabalho Sujo (www.oesquema.com.br/trabalhosujo), toca a Vida Fodona (www.fubap.org/vidafodona) e sempre agita Gente Bonita (www.gentebonita.org), além de ser editor-assistente do caderno Link do jornal O Estado de S. Paulo (www.link.estadao.com.br).
Ana Brambilla
"Every citizen is a reporter." Com esse slogan, o noticiário sul-coreano OhmyNews foi concebido em fevereiro de 2000 como um divisor de águas no jornalismo digital. A quebra do paradigma do jornalista como "detentor do lugar de fala" ofereceu ao cidadão leigo (sem conhecimentos de jornalismo) toda a engrenagem jornalística para dar aval à sua história: redação com editores em Seul para apurar informações vindas do mundo todo e o aval de uma marca de imprensa transformariam um simples relato do acidente da esquina em fato jornalístico.
Assim, o jornalismo colaborativo (open source, participativo, cidadão...) vem sendo adotado por mais e mais veículos (da grande mídia ou especialmente criados para este fim). Pesquisa do Biving Groups com sites de jornais americanos mostrou que, em 2008, 58% das marcas já abriram espaço para UGC (user generated content). Hoje há correntes fortes de jornalismo colaborativo no Chile, Estados Unidos, Espanha, França, Itália, para citar alguns. É possível encontrar iniciativas semelhantes no Sri Lanka, Nova Zelândia, Iraque, Filipinas e Israel. No Brasil, veículos que se consolidaram no modelo de mídia de massa (unidirecional, onde somente o jornalista fala e o público escuta) lançam seus "braços colaborativos", a exemplo do Eu Repórter (O Globo), VC Repórter (Terra), Minha Notícia (iG), VCnoG1 (G1), Leitor Repórter (Zero Hora e Jornal do Brasil), Meu JC (Jornal do Commercio - PE).
Os tipos de conteúdo requisitados ao grande público e veiculados nestes espaços variam drasticamente: vão de fotos de casamento a denúncias de má administração pública. A falta de um modelo ocasionada pela novidade da prática flexibiliza a proposta editorial de cada veículo. No entanto, todos já concordam com uma premissa: o filtro da redação.
Alvo de acusações de uma provável "censura", a triagem de editores profissionais sobre o material submetido pelo público se torna necessária à medida em que tais espaços se propõem "jornalísticos". Para tanto, o compromisso com a realidade ainda se sustenta. Realidade esta que se torna mais viável após processos de checagem de fatos, eventual correção de dados e adequação a uma linguagem de fácil compreensão. Este é o trabalho desenvolvido por jornalistas profissionais em processos colaborativos e que distinguem o conteúdo publicado nestes ambientes do material levado a público em plataformas abertas como YouTube, Wikipedia, Flickr e grande parte da blogosfera. É aí que se diferencia jornalismo colaborativo de conteúdo colaborativo.
A curta trajetória e o caráter experimental das práticas colaborativas no jornalismo ainda deixam pontos a ser explorados e aprimorados. Com grande apelo à publicação de matérias, os braços colaborativos de grandes veículos pecam ao desconsiderar a importância de seus conteúdos. São raros os internautas que lêem as notícias produzidas por outros internautas. E por quê? A falta de destaque editorial pode estar entre as razões, mas certamente não encerra a escuridão onde o conteúdo produzido pelo público cai uma vez que é publicado.
Outra hipótese seria uma relação equivocada entre a abrangência (nacional) destes veículos e a relevância (hiperlocal) dos fatos ali relatados pelos cidadãos repórteres. Rede é nicho e veículos consagrados em cobrir acontecimentos de grande repercussão certamente não serão lembrados por moradores de pequenas comunidades em busca de informações que interferem diretamente no seu dia-a-dia. Esta é a noção de "village reporter", desenvolvida por Oh Yeon Ho, fundador do OhmyNews.
Em locais afastados dos grandes centros urbanos, antenas parabólicas em sítios de beira de estrada mantêm os moradores informados sobre as guerras no oriente médio e as variações na bolsa de valores. Porém, o desmoronamento de uma parede de rochas no caminho à cidade e a chegada de vacinas contra febre amarela no posto de saúde a 25km dali passam ao largo destes noticiários.
É aí que entra em cena o jornalismo colaborativo, um terreno fértil de experimentações e benefícios comuns.
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Ana Brambilla é jornalista e mestre em comunicação, com ênfase em práticas colaborativas. É professora de jornalismo digital da Faculdade de Comunicação Social (FAMECOS) da PUC-RS. Mantém o blog Libellus em http://www.anabrambilla.com
André Passamani
Do inglês peer to peer (ponto a ponto), refere-se às redes de compartilhamento de arquivos, associadas à diversão por seus usuários e a cataclismas econônicos por seus críticos.
Filosoficamente, o princípio que rege as redes de troca de arquivos ponto a ponto é o mesmo da internet. Uma rede em que os pontos podem ser servidores e clientes. Sem distinção hierárquica.
NEUROMOB
Em meados de 2003, pensando sobre o tema, escrevi isso:
Neuromob - Substantivo masculino. Neologismo que denomina a versão analógica da troca de arquivos intermediada pela rede de computadores. Ou simplesmente um P2P olho no olho.
Isso deve acontecer de modo simples. Basta um ajuntamento de pessoas e alguma disposição de aplicar princípios bacanas como a "generosidade intelectual". Se não vejamos, vá à festa e leve um livro. Chegando lá, fique à vontade e troque esse livro com alguém. Generosidade sim. Mas, como diria o finado Sabotage: 'Tem que ter pra trocar'.
Tratava-se de um convite para uma festa feita por esses caras que continuam um trabalho parecido, em SP.
VIDA DIGITAL
Redes P2P são o melhor exemplo dos efeitos da tal Vida Digital do Negroponte.
À medida em que a largura de banda deixar de ser um problema, fica mais fácil obter os conteúdos de seu interesse em formato digital. E se o P2P for amigável, a troca vai ser simples.
ECONOMIA
A indústria musical decidiu ignorar o avanço das redes P2P e criminalizar os usuários/fãs. A iTunes Music Store, qualificada por muitos como a melhor resposta até aqui, foi criada pela Apple - não o selo dos Beatles - mas a fabricante de iPods.
O sucesso da iTMS veio quando já era tarde para a indústria fonográfica. E a lógica da Apple foi simples, tornar a compra de música mais fácil do que a aquisição nas redes P2P. E o preço de U$ 0,99 por cada faixa, menos do que o de um refrigerante, tornou a compra justificável por parte do americano médio.
OLHO NO OLHO
A falta de uma lógica meritocrática é minha maior crítica às redes P2P, por facilitar a existência de leechers e não criar uma comunidade. Regras simples como as do soulseek (presentes em qualquer rede social) criam um ambiente que emula o olho no olho, o contato humano.
Em 2005, procurando o disco Babylon By Gus do Black Alien, conheci um usuário do soulseek que olhou minha discoteca, autorizou meu download e comentou que fazia música. Foi assim que eu conheci o duo 2ladujazz.
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Andre Passamani é produtor-executivo e sócio da colmeia, uma produtora criada em São Paulo que combina desenvolvimento web, inovação tecnológica e produção de video. Formado em jornalismo, nasceu capixaba, virou maratimba e parece cada dia mais com um paulista.
